Elizabeth Costello

Elizabeth Costello é uma pobre criação da maldade, inventada e escrita por Coetzee, em 2003.

De Coetzee, não li outra coisa – e gostaria de pensar que é um homem inteligente, já que é altamente premiado, e que não faria o que fez com Elizabeth por estupidez. Elizabeth é de uma tristeza absoluta, uma maltratada, esfolada mesmo, abandonada numa incoerência sem tamanho e numa desesperança lancinante.

Elizabeth é uma célebre escritora australiana, nascida em 1928, o que lhe dá quase 67 anos no momento em que a conhecemos, em 1995. Ela estudou arte, escreveu um monte de livros, de ficção ou não, mas é mais conhecida pelo seu primeiro romance, A casa da rua Eccles, que publicou em 1969, então com 41 anos, depois de ter vivido 12 anos na Inglaterra e na França (de 1951 a 1963). A protagonista d’A casa é Molly Bloom, esposa de Leopold Bloom, em Ulysses (1922), de James Joyce. Até o fim da vida, Elizabeth viaja o mundo inteiro, convocada para fazer conferências e compartilhar suas ideias. Ela também é vegetariana e luta contra os abatedouros e a crueldade com os animais.

Entendem?

Elizabeth Costello nasceu numa época ainda desfavorável para as mulheres, mas ela viajou o mundo, viu o desenvolvimento do feminismo e suas primeiras conquistas, participando, ativamente, do despertar feminino. Em 1969, Elizabeth Costello cometeu um ato de coragem: ela entrou na casa de James Joyce e lhe roubou Molly Bloom. Por seu feito, tornou-se ilustre. Quando a conhecemos, ela é representada como uma idosa insegura e amedrontada, mas ainda feroz à sua maneira, viajando para onde quer que a chamem e defendendo a vida dos animais com unhas e dentes, diante de audiências que não compram seus argumentos.

A grande interrogação em torno de Elizabeth se coloca em duas cenas ligadas ao sexo, quando casadas com as reflexões sobre a escrita e sobre a criação de personagens.

Passagens.

(1) Entrevista de Elizabeth para Susan Moebius, parte da conversa sobre o último romance de Elizabeth, Fogo e Gelo, cujo protagonista é um jovem rapaz:

[Elizabeth] “… Mas não, Fogo e Gelo não é uma autobiografia. É uma obra de ficção. Inventada por mim.”

[Susan] “É um livro poderoso, garanto a nossos ouvintes. Mas a senhora acha fácil escrever sob o ponto de vista de um homem?” […]

“Fácil? Não. Se fosse fácil não valeria a pena fazer. Essa alteridade é que desafia. Inventar alguém que não é você mesmo” (p.18)

(2) Susan Moebius, mesma entrevista:

“Gostaria de lhe contar”, continua a entrevistadora […], “sobre o impacto que A casa da rua Eccles teve sobre mim quando o li nos anos 1970. Eu era estudante, tinha estudado o livro de Joyce, tinha absorvido o famoso capítulo sobre Molly Bloom e toda a ortodoxia crítica que vinha junto com ele, ou seja, que ali Joyce havia liberado toda a autêntica voz do feminino, a realidade sensual da mulher, e tudo o mais. E aí li seu livro e me dei conta de que Molly não tinha de se limitar ao jeito que Joyce a havia construído, que ela podia muito bem ser uma mulher inteligente interessada em música, com um círculo de amigos próprios e com uma filha com quem trocava confidências – foi uma revelação, eu diria. E comecei a pensar em outras mulheres que acreditamos terem recebido voz pela mão de escritores homens, em nome de sua liberação, e que acabam apenas servindo e beneficiando a filosofia masculina” (pp.20-21).

(3) Conversa do filho de Elizabeth com Susan Moebius:

[Filho] “Durante a entrevista, tive a sensação de que você vê minha mãe apenas como uma mulher escritora, ou uma escritora para mulheres. Ainda a consideraria um escritor-chave se ela fosse homem?”

[Susan] “Se ela fosse homem?”

“Tudo bem: se você fosse homem?”

“Se eu fosse homem? Não sei. Nunca fui homem.[…]”

“Mas minha mãe já foi homem”, ele insiste. “Já foi cachorro também. Ela é capaz de penetrar nos outros com o pensamento, em outras existências. […]”

“Talvez. Mas ainda assim sua mãe continua sendo uma mulher. Faça o que fizer, faz como mulher. Ela habita o seu personagem como mulher, não como homem“. (pp.29-30).

Passagem (1): Coetzee se desafiou.

Passagem (2) e (3): E perdeu.

Mas será que sabe?

Quero acreditar que sabe, porque é um homem inteligente, e que essas passagens estejam aí tão somente para apontar com descaramento e auto-ironia que ele não conseguiu, que o prêmio Nobel de literatura continua sendo um homem.

Elizabeth Costello, ao fim e ao cabo, beneficia a filosofia masculina, porque Coetzee habita Elizabeth como homem, com a sua pica das galáxias.

(Cena 1)

Quando tinha 40 anos, Elizabeth começou a posar todos os sábados para o namorado de sua mãe, que gostava de pintar, a pedido dela. O senhor havia feito uma laringotomia, não conseguia mais falar, e seu corpo estava sendo consumido pelo câncer em mais de uma forma. Um dia, ele escreveu: “Queria pintar você nua. Teria adorado isso”. correggio-antonio-allegri-madonna-del-latte-36018-pElizabeth então pensa “Que se dane”, afrouxa o xale e mostra os seios. Diz para a irmã, numa carta: “Era tão fora do meu jeito de ser. De onde tirei aquela idéia?”. E chega à conclusão de que foi de Maria, da Madonna del Latte, de Correggio (pintura ao lado, 1524). “Imagine a cena no estúdio de Correggio naquele dia”, ela diz à irmã, “Com o pincel na mão ele aponta: ‘Puxe assim. Não, não com a mão inteira, só com dois dedos’. Atravessa a sala, mostra a ela. ‘Assim’. E a mulher obedece, fazendo com seu corpo o que ele manda. Outros homens observando o tempo todo nas sombras: aprendizes, pintores amigos, visitantes. Quem sabe quem era ela, a modelo daquele dia?”. Elizabeth imagina que a atmosfera naquele estúdio estava elétrica de energia erótica. “O pênis de todos aqueles homens vibrando? Sem dúvida”. E adiciona ao erotismo o elemento da adoração. “Mas existe alguma outra coisa no ar também. Adoração. O pincel se detém enquanto adoram aquele mistério que lhes é manifestado: do corpo da mulher a vida jorra num fluxo.” Coetzee, you.can.kiss.my.ass. Não há adoração nenhuma enquanto as pirocas estão vibrando. Nenhuma mãe consegue dar de mamar ao seu bebê em paz na rua. Nenhum homem com o pau fremindo pensa em adorar o milagre da vida quando vê uma mãe baixar o sutiã e dar o bico do peito ao filho. Nenhum homem com a pica pulsando pensa em Maria antes de lançar, lascivo, que ele queria dar uma chupadinha também. Não há adoração – e, havendo, é falsa. É uma adoração que colocou todas as mulheres na situação odiosa do pecado e da impureza. Não existe mãe virgem, não existe mãe que nunca menstruou. Pobre Maria mãe de Jesus, nossa crucificadora.

E então, a nossa pobre Elizabeth é obrigada a enfim dizer a palavra humanidade. “Quando Maria, bendita entre as mulheres, sorri seu sorriso angélico e puxa o doce bico rosado do peito diante de nossos olhos, quando eu, imitando Maria, descubro meus seios para o velho Mr. Phillips, praticamos atos de humanidade”. Não, Coetzee. Elizabeth pode ter mostrado os seios para o velho por qualquer tipo de fetiche, de lascívia, de insegurança ou do mais puro desejo pelo namorado definhado da própria mãe, mas Elizabeth, aos quase 70 anos, não acreditaria realmente que era porque seu subconsciente estava imitando Maria, num ato de humanidade.

O que ela não conta à irmã é o que se passou depois, quando Mr. Phillips, já no hospital, não é nada mais do que um “velho saco de ossos esperando para ser levado embora”. A mãe lhe propõe que ela vá visitá-lo. Ela vai. Visita-o aos sábados, como de hábito. Num desses sábados, ele escreve “Belos seios você tem. Nunca esquecerei. Obrigado por tudo, querida Elizabeth”. Depois arranca a página do bloco, amassa e joga fora, levantando um dedo aos lábios “como se dissesse Nosso segredo“. “Nosso segredo” é a frase que diz um pedófilo a uma criança muito pequena depois de abusar dela, Coetzee. Mas a isso, a resposta de Elizabeth é, novamente, “Que se dane”. Elizabeth resolve trancar a porta do quarto e fica só de calcinha. “Vamos fazer um agrado ao velho”, ela pensa. De início, pensa apenas em ficar ali, estátua, posando para suas vistas. Mas depois de alguns minutos, ela resolve “pousar a mão casualmente na coberta e começar a afagar, muito de leve, o lugar onde o pênis deveria estar, se é que o pênis está vivo e desperto; e então, quando não há reação, afastar as cobertas e soltar o cordão do pijama de Mr. Phillips […], abrir a frente e depositar um beijo naquela coisinha inteiramente flácida e tomá-la na boca e movê-la até vibrar de leve com vida. É a primeira vez que vê pêlos púbicos que ficaram brancos. […] E o cheiro também não é agradável, o cheiro das partes de um velho, mal lavadas”. E então ela muda de palavra. Não mais humanidade, mas caridade, um quase sinônimo. Que nome os gregos dariam à cena de Elizabeth abaixada sobre o velho saco de ossos trabalhando “seu quase extinto órgão”?, ela se pergunta. “Não eros, com certeza – grotesco demais para isso. Agape? De novo, talvez não. Queria dizer que os gregos não teriam palavra para aquilo? Seria preciso esperar que os cristãos viessem com a palavra certa: caritas?”.

Por quê? Por quê? Essa cena é plausível de ser vivida por uma mulher, mas em sua escrita, em sua representação, é profundamente habitada por um homem e beneficia a filosofia masculina. O que ela diz? Ela diz que mesmo para um homem moribundo, com um pau murcho e fedorento, existirá sempre uma mulher mais nova para lhe mostrar os peitos e lhe fazer um boquete gostoso, porque, por cima de todo asco e de toda a consciência do grotesco, as mulheres são humanas caridosas para com a sexualidade do homem de qualquer idade. O que nos diz Coetzee? Que até as mulheres maduras, inteligentes, ilustres, viajadas, lidas e ferozes como Elizabeth Costello estarão lá a serviço das jebas mais deploráveis. E pior – que esse é um serviço coletivo. Bendita é a caridade entre as mulheres: sua mãe certamente sabia. Sua mãe sabia que seu próprio corpo idoso não poderia dar a Mr. Phillips a mesma satisfação que o corpo de sua filha, tantos anos mais jovem.

(Cena 2)

A cena 2 se passa no capítulo 6, que se chama “O problema do mal”. Enquanto Elizabeth pensa sobre o mal, sobre o holocausto e sobre a vida dos animais (“um pardal derrubado do galho por um estilingue, uma cidade aniquilada pelo ar: quem ousa dizer o que é pior?”), ela se lembra de quando tinha 19 anos e teve seu primeiro encontro com o mal. “Quando tinha dezenove anos, lembra-se, permitiu-se ser caçada na ponte da rua Spencer”. Permitiu-se ser caçada = garota, você merece ser estuprada. O homem era um trabalhador portuário, de uns 30 anos, rude. Eles foram para um bar e depois para a casa de cômodos onde ele morava. No último minuto, no entanto, ela não conseguiu transar com ele e disse que queria parar. O cara tentou à força. Ela lutou com ele. “De início, ele tomou aquilo como um jogo. Depois cansou-se, ou seu desejo cansou, virou uma outra coisa e ele começou a bater nela de verdade. Levantou-a da cama, socou seus seios, socou sua barriga, deu-lhe uma terrível cotovelada no rosto. Quando se encheu de bater, rasgou as roupas dela e tentou pôr fogo nelas dentro do cesto de lixo. Completamente nua, ela saiu e se escondeu no banheiro do andar. Uma hora depois, quando teve certeza de que ele estava dormindo, saiu e recolheu o que havia sobrado. Vestindo os farrapos queimados do vestido e mais nada, fez sinal para um táxi. Durante uma semana ficou primeiro com uma amiga, depois com outra, recusando-se a explicar o que acontecera. Estava com o maxilar quebrado; teve de ser operado”.

Supérfluo dizer que essa é uma cena violentíssima e tão comum em 1947 quanto em 2017 e que é perfeitamente plausível que uma menina de 19 anos, vivendo em 1947, tenha sentido absoluta vergonha desse episódio e que o tenha reprimido, negando-se a pensar e a falar sobre ele com quem quer que fosse:”ela nunca o revelou a ninguém […] durante meio século, a lembrança permaneceu dentro dela como um ovo, um ovo de pedra, que nunca se abriria, que nunca germinaria”. Mas não se trata de um episódio absolutamente recalcado, que não existe na memória ativa, vivendo apenas nos subterfúgios do inconsciente. Aos quase 70 anos, Elizabeth relembra essa cena com detalhes. Aos quase 70 anos, Elizabeth se pergunta “por que sua cabeça recua para esse episódio do passado e – de verdade – pouco importante?”.  Elizabeth é de encher de tristeza. “De verdade – pouco importante” é como essa mulher madura, inteligente, ilustre, viajada, lida e feroz define a violência de um homem vil que a espancou, que queimou suas roupas e lhe quebrou o maxilar, deixando-a completamente despida e violentada, desde seu corpo até sua capacidade de fala. A mulher que roubou Molly Bloom das mãos de James Joyce e que luta pela vida dos menores, daqueles que não têm linguagem para falar por si mesmos, aqueles que ninguém sabe o que são, os animais nos abatedouros, “acha aquilo bom, gosta daquilo, daquele seu silêncio, um silêncio que espera preservar até o túmulo”.

Elizabeth levará para o túmulo a vergonha de ter-se “permitido caçar”, na filosofia mais maligna do mundo macho.

Gostaria de pensar que a obsessão de Elizabeth pela vida dos animais fosse tão somente pela vida dos animais. Mas talvez ela queira tanto salvar suas vidas, recusando-se a todo custo comer de sua carne, porque no abatedouro é ela quem está, aos 19 anos, lutando em vão com um homem carnívoro.

Elizabeth é de uma tristeza profunda.

Maldito. Maldito seja Coetzee.

Mas como gostaria de pensar que ele é um homem inteligente, já que é altamente premiado, e que não faria o que fez com Elizabeth por estupidez, espero que minha leitura esteja errada, que haja mais em Elizabeth than meets the eye. Digam-me. Salvem-na.

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2 comentários sobre “Elizabeth Costello

    1. Deveria… mas já vi que em “Desgraça” tem uma cena enorme de estupro. Não sei se quero.
      “Esta é a minha tese de hoje: que certas coisas não são boas de se ler, nem de se escrever”.

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