Amizade de adulto

A primeira vez que perdi uma amiga, tinha 16 anos. Ela começou a namorar e as saídas que fazíamos juntas não a interessavam mais. Quem é que prefere ir comer crepes com um bando de garotas a ir ao cinema dar uns pegas clandestinos no namorado? Quando ela concedia seu tempo, levava o anexo junto. Foi o fim das conversas íntimas, o fim da sisterhood. O primeiro pé para fora da sisterhood é marcado pela data em que a primeira das amigas começa a namorar. Isso significa que aquela época de adolescentes com o corpo desengonçado – algumas de aparelho, outras com espinhas, e ainda outras que não descobriram muito bem qual desodorante casa melhor com suas glândulas sudoríparas -, aquela época marcada pelo passatempo mais reconfortante do mundo – passar horas na lanchonete, no telefone ou nas casas umas das outras comendo porcaria e blablando sobre meninos mais velhos que não sabem da nossa existência -, aquela época, acabara. Essa era termina quando um desses meninos mais velhos descobre a existência de uma de nós. Mesmo que seja apenas uma, basta uma para que nada seja como antes. Talvez o mesmo aconteça com os meninos, mas eu não saberia dizer com precisão o que acontece no íntimo da brotherhood. E quando a amizade é entre um garoto e uma garota, o que é uma ótima amizade, uma amizade à beira da perfeição quando não há ambiguidades (há quem diga que sempre há ambiguidade, mas não tenho certeza), é pior. O namorado dela e a namorada dele nunca irão realmente aceitar. O resultado é o desastre, o letal afastamento.

As conversas verdadeiramente íntimas vão minguando com o passar da idade, quando, um.a por um.a, todos.as vão indo embora. A amizade não precisa acabar, mas não se sabe mais qual é o âmago daquele vínculo, o que o mantém além de lembranças do passado. Agora só se fazem encontros de casais. Com caras e mulheres que até podem ser bem bacanas, mas que vieram sabe-se lá de onde, sabe-se lá deixando quais outros amigos para trás. Os assuntos são superficiais, banais, anedotas e piadas comuns, para gerar boas risadas e nada mais. Tudo bem? é só uma pergunta vazia, cuja resposta é sempre positiva e nunca complexa. Não temos tempo e nem vontade para as complexidades, as dúvidas, as tristezas dos outros. Nem a profunda felicidade desses amigos nos interessa realmente.

Outras amizades surgem, mas aqueles, aqueles que viram nossos eus mais feios, aqueles terão mudado para sempre. Mas essa é só a minha experiência.

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