Viajar sozinha

Existem muitos posts de mulheres escrevendo sobre viajar sozinhas, na maioria, blogueiras de (milésima) viagem. Mas ainda existem muitas mulheres que não têm coragem. Mulheres casca grossa, sim, mas que não suportam a ideia de ocupar apenas uma cadeira em frente ao portão de embarque e de aguardar, sozinhas. Estar sozinha significa entrar no banheiro com toda sua bagagem, porque ninguém pode ficar com ela lá fora, significa aprender a selecionar cuidadosamente a tranqueira, para as malas ficarem mais leves e carregáveis somente por você, sem ajuda. É como se de repente aquela seção de xampu do supermercado com centenas de opções se encolhesse e só restasse uma única embalagem – the one and only, que talvez não seja a ideal para todas as condições meteorológicas, mas que te será amplamente suficiente. O mesmo vale para roupas, sapatos e maquiagem. Leveza é o objetivo. Leveza material e mental! Faz bem ao ego – eu consigo pegar minha mala na esteira, muito obrigada – e à coluna. É claro que há viagens e viagens, viajantes e viajantes. Se você for rica e for encontrar serviçais em todos os lugares, se joga no excesso de bagagem mesmo! Mas esse é o caso de uma minoria, não é mesmo? Uma mulher muito sábia um dia disse que a mala de rodinhas foi a invenção que, mais do que qualquer outra, incluindo a pílula anticoncepcional, mais contribuiu para a liberação das mulheres. Mas mesmo assim, às vezes nem as rodinhas dão conta… Por isso, minimalismo já!

Não é evidente encontrar pessoas com o mesmo ritmo de viagem. Alguns acordam cedo, outros acordam tarde; uns gostam de museus, outros não; uns gostam muito de praia, outros menos. É senso comum que amizades e até relacionamentos podem se romper com a ajuda de uma viagem. E, se vocês quiserem saber, been there, done that. Ponto para o senso comum. Não tem jeito certo e jeito errado de viajar, mas há jeitos compatíveis e incompatíveis. Claro que pode haver jeitos de conciliar, mas a incompatibilidade, no mais das vezes, pode ser fatal. Eu sou adepta do slow travel, o que não é o caso dos turistas, em geral, que gostam de fazer valer a grana investida e conhecer o máximo de lugares e ter o máximo de experiências possíveis, maximizando à exaustão a produtividade diária. Gosto de acordar sem despertador (mas ainda a tempo de pegar o café da manhã), visitar apenas um ponto turístico, no máximo dois, ou às vezes nenhum, por dia; passar horas sentada em parques ou cafés, lendo uma revista, tomando uma cerveja, fumando um cigarro. Esqueci de comprar entradas para os museus de Florença e, por isso, não conheço nada naquela praça que não seja seu lado de fora, o chão, os turistas, a vista debaixo. Então encontrei uma amiga e passei uma tarde inteira almoçando e ocupando uma mesa de restaurante, jogando conversa fora. O mesmo aconteceu em Split, com um amigo que não via há muitos meses, depois do quê alugamos bicicletas e pedalamos à esmo. Amo Florença, amo Split, sem ter entrado em nenhum museu, em nenhuma igreja. Mas amo também Cagliari, Budapeste, Vancouver e Berlim, onde caminhei devagar, parei à vontade quando meus pés começavam a doer, olhei para quadros apenas durante o tempo que me apetecia, ocupei mesas de restaurantes comigo mesma, tirei apenas fotos em que não apareço, fiz amizades no hostel, acordei no meio da noite com gente trepando na cama ao lado da minha.

Viajo bem sozinha. Mas também fico bem com alguém, desde que seja companhia compatível. Faz algum tempo que não viajo sozinha, tive a sorte de ficar noiva de um compatível.

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